Comitê Popular dos Atingidos pela Copa 2014

Belo Horizonte | MG | Brasil

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CORDEL: VAMOS PARA A RUA A MIL (POIS PREJUDICA UM BRASIL A COPA DO CAPITAL).

Autora: Salete Maria
Salvador-Ba
Junho/2014
Vamos para a rua a mil

Quem mora neste país
Sabe que ele é dividido
Entre quem vive feliz
E quem vive espremido
Por isso é que um Mundial
Que agrada ao capital
A tantos causa gemido

Há um Brasil que é só festa
Outro que é necessidade
Um que tem gente honesta
E outro que é só vaidade
Há um Brasil contemplado
E outro prejudicado
Esta é a realidade

Eu sou uma brasileira
Que ama muito o Brasil
Mas penso que é asneira
Ficar sem dar nem um pio
Sobre as iniquidades
E as muitas perversidades
Que a dona FIFA pariu

Nada tenho contra a Copa
E gosto de futebol
Mas já morei em maloca
E sei onde nasce o sol
Vejo a desigualdade
No campo e na cidade
Clara feito um arrebol

O que muito me incomoda
É o estado de exceção
Que está virando moda
Dentro da nossa nação
Que virou país-empresa
Que destrói a natureza
E a vida do cidadão

Sei que a FIFA tá mandando
Porque o governo permite
Mas as ruas tão gritando
Porque a gente resiste
Quem aprendeu a lutar
Não se deixa fascinar
Pelo jogo das elites

E eu que sou feminista
Das que não faz concessões
Ao lucro capitalista
E às regras dos patrões
Sei que esse megaevento
Para mim não tem assento
Dentro ou fora dos portões

Me somo a quem não se cala
Diante das exclusões
Uso sempre a minha fala
Contra os velhos tubarões
Que roubam o nosso povo
E fazem discurso novo
Em tempos de eleições

E aqui eu me refiro
A políticos diversos
Que vivem nos dando giro
Enquanto estão imersos
Nos interesses da FIFA
Que nosso direito rifa
Com discurso controverso

Entendo que o Mundial
Que o país vai sediar
Já deu mais do que sinal
Do rombo que vai deixar
Pra aquela população
Que para ganhar o pão
Rala até não aguentar

Afinal todas as obras
Que a gente tá custeando
Estão cheias de manobras
E ninguém tá explicando
Por que tanta imposição
Contra a Constituição
E contra quem tá lutando

Muito dinheiro investido
Pra garantir repressão
O povo virou bandido
De crime de opinião
E governos de toda cor
Legitimam o terror
Em ano de eleição

Quem anda pela cidade
E sabe o que é o povo
Conhece as necessidades
Dessa vida arroz com ovo
Onde falta moradia
Água, gás e energia
Saúde e transporte novo

Quem faz parte do Brasil
Que pega filas gigantes
Sabe que está barril
E o quanto é revoltante
Ver famílias despejadas
E suas casas derrubadas
Por ordem dos arrogantes

E a falta de transparência
Sobre muitas decisões?
Além das incoerências
Sobre as (i)licitações
E o que foi prometido
Pugnado e defendido
Vai ter inaugurações?

Mobilidade urbana
Ninguém sabe, ninguém vê
E ninguém mais se engana
Com o que vão nos dizer
Se é com nosso dinheiro
Então todo brasileiro
Pode sim se intrometer

Para cada viaduto
Arena e aeroporto
Uma família de luto
E um operário morto
Um direito violado
Um choro desesperado
E um olhar absorto

Os abusos são gritantes
Contra grupos vulneráveis
Prisão de manifestantes
Remoções inaceitáveis
Mulheres prejudicadas
Ofendidas, degradadas
Feito produtos vendáveis

A FIFA manda em tudo
Com aval dos governantes
Extrai um lucro graúdo
Mas explora estudantes
Que trabalham sem ganhar
Para a FIFA não pagar
Imposto ou lucro cessante

A FIFA fez exigências
Ferindo a soberania
Usurpou as competências
Próprias da democracia
Impôs a sua vontade
Quebrou a legalidade
E contou com a covardia

Fez do Brasil um otário
Que pagou pra se ferrar
Matou alguns operários
E não vai indenizar
Os pobres dos dependentes
Que não verão nem os dentes
Dos caras que vão jogar

A FIFA e seu patrocínio
Não se importam com você
Que exerce o raciocínio
E tem algo pra dizer
Contra as violações
Preconceito e exclusões
Que ela sabe promover

A FIFA não se interessa
Por quem foi desalojado
Pois ela tem muita pressa
Para levar seu bocado
E deixar o sofrimento
A exclusão e o tormento
Como seu maior legado

A FIFA só tem apreço
Por quem compra seu ingresso
Ela sabe o endereço
Dos ricos lá do Congresso
Vai jantar com a presidenta
Que também não tá isenta
Desse grande retrocesso

A FIFA é o capital
Que não respeita humano
É a dona da Lei Geral
E desse jogo insano
Que envolve todo o poder
Que autoriza prender
Quem atrapalhar seus planos

A FIFA tá nem aí
Pra exploração sexual
Ela mandando aqui
Pode é haver bacanal
Racismo e exclusão
Sofrimento e opressão
Nada disso lhe faz mal

A faxina das cidades
Tirando o povo da rua
Toda essa iniquidade
Com minha vida e a sua
Conta com a conivência
Da corja de excelências
Que manda sentar a pua

É por isso que eu digo
Através desse canal
Mesmo correndo perigo
De me descerem o pau
Vamos pra rua a mil
Pois prejudica um Brasil
A copa do Capital


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Dinheiro público jogado fora para adular a FIFA!

A matéria que segue saiu em diversos jornais e revela o grande rombo financeiro que teremos com a Copa. É interessante perceber que os estádios, ou arenas, como prefere a FIFA, que não tiveram seus valores aumentados no último ano são os que já estão prontos. Uma obviedade que esconde o processo de suprimir as licitações com a justificativa de urgência.
Por outro lado, as obras de mobilidade que foram alardeadas como o grande legado da Copa aos poucos vão sumindo, sendo esquecidas, colocadas de lado.
E por incrível que pareça a coisa ainda pode piorar pois com a realização dos jogos a FIFA pode fazer novas exigências, segundo alguns especialistas estes gastos extras podem chegar a 1 bilhão e 500 milhões de reais. A estimativa foi levantada baseando nos gastos extras para a Copa das Confederações e que o Ministério Público está investigando, foram 250 milhões gastos por exigências como: camarotes, transporte de autoridades, receptivo e outros.

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Matéria com a relação dos investimentos de dinheiro público para a Copa.

Convenção de futebol Soccerex no Rio é cancelada após governo retirar apoio.

mascote-nao-vai-ter-copaApesar do título da matéria há controvérsias quanto aos motivos do cancelamento, falta de recursos, falta de acordo ou falta de segurança. Ou quem sabe falta tudo isso e mais alguma coisa que no futuro saberemos. A cara de pau é tão grande que pessoas ligadas ao governo sugeriram aos organizadores entrarem com projetos em Leis de Incentivo a Cultura e ao Esporte.

Os Comitês Populares dos Atingidos Pela Copa nas doze cidades sedes vem alertando os governos quanto aos impactos negativos para a realização dos jogos e da enorme dívida contraída. Em quatro anos de muitas reuniões e tentativas de acordo pouco foi feito para amenizar o sofrimento de famílias que perderam suas casas, trabalho e até mesmo o direito de ir e vir.

O entendimento dos efeitos nefastos da Copa 2014 tem colocado a população cada vez mais atenta e indignada com o rumo dos acontecimentos. A continuarmos assim poderemos ter o cancelamento dos jogos e antes que as grandes mídias venham nos dizer que a culpa é dos vândalos, queremos lembrar que quem assinou “sem ler” o caderno de exigências da Fifa foi o Governo Federal, cabe a nós cidadãos dizer não!

Matéria da Reuters: http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE9A406G20131105

Campeões da Copa do Mundo

A Copa do Mundo é nossa!

É campeão! É campeão! É campeão! E não, não estamos falando da Copa do Mundo Fifa Brasil 2014, estamos falando de coisa muito mais importante, mas que não tem espaço na mídia tradicional. Estamos falando de futebol, da essência, do esporte, da diversão, e não de jogadores milionários se reunindo sob a organização de uma entidade milionária e corrupta, sendo patrocinados por empresas bilionárias e todos juntos com o interesse de ganhar mais e mais dinheiro. E essa festa de arromba (ou seria de arrombar os cofres públicos, o bolso do povo e os direitos das gentes?) acontecendo aqui, no paraíso do novo mundo, Pasárgada, onde não existem problemas, já que são maquiados pelos mandantes. Estamos falando do título brasileiro na “Copa do Mundo de Futebol Social”, ou “Homeless World Cup” (Copa do Mundo dos sem lar na tradução literal).

http://blogdotas.terra.com.br/2013/08/27/brasil-ganhou-a-copa-dos-invisiveis/

Esse título ninguém viu, não deram importância, mas diferentemente da festa de arrombar da Fifa, nesse campeonato o único interesse além de jogar futebol é mostrar ao mundo a situação da população de rua e os descasos e maltratos que sofre. A iniciativa depende de nós e dos meios alternativos de divulgação para fazer efeito, uma vez que nenhuma mídia tradicional vai falar disso. Então, falemos.

Uma política de higienização e gentrificação está em prática no nosso país (justamente no período em que nos será imposta a Copa da Fifa…), em especial nas cidades-sede do grande evento. Belo Horizonte que o diga! Somente nos últimos dois anos foram mortos mais de 100 (isso mesmo, cem) pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social na capital mineira, uma média aproximada de um a cada semana. Nos últimos dias porém, a coisa engrossou. Somente de 24 a 27 de agosto QUATRO foram mortos em BH. Um absurdo, crueldade, verdadeiro extermínio! Não dá pra falar quem são os responsáveis, mas é intrigante esse aumento de casos nas proximidades da festa de arrombar.

http://www.otempo.com.br/cidades/mais-uma-mulher-%C3%A9-encontrada-morta-pr%C3%B3ximo-a-um-viaduto-em-belo-horizonte-1.703792

Vale a pena, cobre o custo o acontecimento de uma Copa do Mundo no país? O que é que esse evento trará para nós que vale mais que, não digo cem, mas UMA VIDA? Não somos contra o futebol, pelo contrário, mas para nós não vale isso tudo. Muito melhor ter feito aqui a Homeless World Cup, organizar mais Copeladas, jogar bola na rua, no campinho, do que se dobrar a um evento no qual todos, Fifa, patrocinadores, jogadores, organizadores, visam o dinheiro, a troco de violações de direitos mil e muitas vidas. No mais, é campeão!

Prandelli sem viseira

Prandelli sem viseira

O técnico da seleção de futebol da Itália, Cesare Prandelli, soltou o verbo falando sobre a Copa no Brasil, mostrando que a desigualdade no nosso país é tão latente que nem a maquiagem feita consegue esconder. Criticou o fato de o Brasil priorizar estádios de Copa em detrimento de outros setores bem mais necessitados e reivindicados pelas manifestações da revolta do vinagre durante a copa das violações. A declaração do técnico mostra que sua preocupação vai além do futebol e deixa claro também que a Copa do Mundo está sendo questionada aqui dentro e igualmente lá fora. A fala de Prandelli tem que ser para nós uma motivação para continuarmos na luta pelos direitos, que estão sendo violados por imposições da Fifa acatadas pelo poder público. Está dando resultado, prossigamos!

Nota Pública de Repúdio à realização do Workshop Internacional sobre Deslocamentos Involuntários

Foi com surpresa e consternação que ficamos sabendo do Workshop Internacional sobre Deslocamentos Involuntários, atividade promovida pelo Ministério das Cidades e o Banco Mundial, em Brasília, nos dias 27 e 28 de março de 2012.

A programação do evento, que conta exclusivamente com agentes dos governos federal, estadual e municipal e técnicos convidados do Banco Mundial, sinaliza um compromisso em legitimar e suavizar as violações de direitos humanos que a população sofre em seu cotidiano em REMOÇÕES FORÇADAS, sob o termo eufemizado deDESLOCAMENTOS INVOLUNTÁRIOS”.

            Chama a atenção que os promotores do “Workshop”, ao esperarem “buscar soluções concretas para o Brasil no enfretamento dos desafios relacionados a deslocamentos involuntários” não dediquem nenhum momento para avaliar as causas concretas que levam às remoções ou para reconhecer que em diversos projetos do PAC e dos mega eventos (Copa e Olimpíadas) as remoções forçadas são completamente desnecessárias para seu objeto-fim.

Nesse sentido, o evento já se encontra formulado numa perspectiva conformista, ao evitar o debate fundamental sobre os impactos nocivos do modelo de desenvolvimento vigente nos direitos humanos. Ao implicitamente considerar os chamados “deslocamentos involuntários” como inevitáveis ou justificáveis, a proposta omite o caráter seletivo desses impactos, os quais atingem com maior intensidade precisamente populações e grupos sociais pobres e vulneráveis.

O evento ignora ainda que os problemas a que buscam soluções devem-se tanto a projetos viciados desde sua origem – ao entenderem a população afetada apenas como obstáculo no caminho do suposto “progresso”, – quanto a projetos cujo interesse nas remoções forçadas é a especulação imobiliária e o aburguesamento do espaço urbano como um todo. Enquanto o poder público permanecer refém desses interesses externos e da pseudotécnica do grande capital e dos “critérios” da FIFA e do COI para obras de infraestrutura, nada nos indica que a vida das pessoas, sua relação com o território e seus direitos não estarão ameaçados.

Na mesma medida, é importante reforçar que o Banco Mundial tem, historicamente, apoiado e financiado os mega eventos e mega projetos que desrespeitam os direitos dos grupos e comunidades citados acima. Apesar de todo o marketing que este Banco faz sobre a sua responsabilidade social e ambiental, muitas das suas ações contribuem para a fragilização dos mecanismos de controle social conquistados pela sociedade civil e impactam de modo severo e, às vezes, irreversível o meio ambiente e as populações.

Frente a esse viés, não é surpresa também que o evento ignore a participação das populações, movimentos sociais e as universidades brasileiras com um histórico de acompanhamento dos impactos das remoções forçadas no espaço urbano e rural brasileiro. Entendemos que esses seriam sujeitos necessários para uma reflexão séria sobre o tema, frente a frente com os secretários de governos, como os de São Paulo ou do Rio de Janeiro, promotores, respectivamente, do Massacre de Pinheirinho e de remoções forçadas ilegais associadas à realização da Copa em 2014 e da Olimpíada em 2016 na cidade do Rio de Janeiro.

Desse modo, repudiamos a realização desse “workshop” e suas decisões, enquanto iniciativas paliativas e de maquiagem para o problema das remoções forçadas no Brasil. Esperamos que o Ministério das Cidades, na figura de sua Secretaria Nacional de Habitação e demais órgãos, promova debates sérios e com a efetiva participação dos sujeitos sociais impactados (outros ministérios, fóruns e entidades de defesa dos direitos humanos, dentre outros), bem como construa ações alternativas às remoções forçadas – que por si só já são violentas -, garantindo o pleno direito das populações impactadas por obras de infraestrutura e reestruturação urbana.

Os interesses do povo brasileiro devem estar em primeiro lugar!

Não às remoções, pelo direito à moradia e ao território! 

Assinam:

Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo)

Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria

Instituto Políticas Alternativas do Cone Sul (Pacs)

Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)

Pastoral Operária Nacional

Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais

Rede Jubileu Sul

A Copa e a Cidade

Os Jogos da Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil celebram a propalada fase de prosperidade econômica alcançada durante os últimos anos no país. Contudo, para além do clima de tudo é festa, é preciso ver que a realização desses megaeventos aprofundam e aceleram o modelo excludente e concentrador que encarna a potência econômica do Brasil que vai dar certo.

Os governos, nas três esferas – federal, estadual e municipal – têm elaborado documentos oficiais e peças publicitárias a fim de imprimir “otimismo” quanto ao legado que eventualmente estes megaeventos podem deixar para a sociedade. No entanto, as ações já postas em prática sinalizam um legado, na verdade, perverso: o aprofundamento da segregação social, acelerando a expulsão das populações pobres da cidade, através de remoções forçadas com indenizações vexatórias, e aumentando a repressão sobre as populações já tão exploradas e discriminadas em termos sociais, sexuais e étnicos.

Nesse sentido, é de se notar que o “otimismo” destes agentes com a realização da Copa se identifica apenas com a oportunidade de investimentos, seguindo a lógica de mercantilização do espaço urbano. Somente para o estádio do Mineirão e para o aeroporto de Confins serão destinados 1 bilhão de reais.

É claro que a destinação de enormes cifras de recursos públicos e a contração de empréstimos pelos governos gera aumento do custo de vida, prejudica as políticas sociais e a remuneração do funcionalismo público, que já vive forte arrocho. Por outro lado, enquanto o governo Federal anuncia cortes de cerca de 70 bilhões no seu orçamento para frear o consumo, o Diário Oficial da União publica uma lei que determina, por exigência da FIFA, diversas isenções de taxas e impostos federais a esta entidade. 1

É dessa maneira que a realização das obras para os Jogos vai na contramão de uma necessária política de Reforma Urbana: estrutural, efetiva e popular. Em verdade, os projetos da Copa alimentam o projeto da “cidade mercadoria”, gerida como uma empresa sob o discurso do “choque de gestão”, “metas e resultados”, a serviço de determinados setores econômicos, como a construção civil, campeã em financiamento de campanhas eleitorais. 2

Sendo assim, pode-se dizer que uma minoria privilegiada se apropria dos benefícios enquanto toda a população suporta os altos custos de realização dos jogos. Por exemplo, para os Jogos Pan-Americanos de 2007 (Rio), foram previstos gastos públicos da ordem de 400 milhões de reais, mas foram revertidos 3,5 bilhões (quase nove vezes mais!!!), que ainda hoje pesa como custo para a população, que é quem paga os impostos para arcar com estas dívidas. No caso dos Jogos Olímpicos de Montreal (Canadá, 1976), a dívida resultante demorou 30 anos para ser quitada. Assim, estamos certos de que as  atuais previsões orçamentárias serão também ultrapassadas. Inclusive, o Tribunal de Contas da União e o Ministério Público já encontraram nos processos de licitação diversas ilegalidades. 3

Diante disso, percebemos o verdadeiro legado que os mega-eventos podem deixar ao povo brasileiro. Para esconder esse lado perverso da Copa, o governo explora a forte ligação emocional do brasileiro com o futebol, passando tudo quanto é medida e projeto num clima de “oba-oba”, tentando esconder sua verdadeira cara: o estado de exceção, pelo qual processos legais são descartados e os direitos civis anulados. Isso porque a FIFA impõe, e os governos obedecem servilmente, inúmeras exigências que desrespeitam os princípios básicos da soberania nacional e os direitos de cidadania da Constituição da República. Assim como existiram os “tribunais de exceção” durante a realização da Copa da África do Sul, onde se pôde prender sumariamente qualquer pessoa, sem julgamento, tudo indica que no Brasil também haverá medidas violadoras dos direitos fundamentais dos cidadãos. No estado do Paraná, por exemplo, já se criou até mesmo uma “secretaria do juizado especial” para  “atender imediatamente” contravenções num raio de5 kmdo estádio do Clube Atlético Paranaense.

A ação repressiva do Estado também ganha novos contornos. Em Belo Horizontejá se percebe várias violações dos direitos fundamentais: a abordagem violenta contra os moradores em situação de rua, prisão massiva de flanelinhas, opressão hipócrita contra as prostitutas, enquadramento de pichadores e grafiteiros como “formação de quadrilha”, proibição das feiras de rua (ex.: Comboio do Trabalhador), manifestações culturais, etc. Práticas de “higienização” que colocam em evidência o profundo preconceito e a ação discriminatória dos governantes.

A propósito, o Quilombo Mangueiras, situado na Mata dos Werneck, será seriamente violado pelo megaprojeto denominado Vila da Copa, que será construído neste que é o último grande remanescente verde de Belo Horizonte. Trata-se do maior empreendimento imobiliário em curso no país, com a construção de cerca de 70 mil unidades habitacionais que, após o uso para a Copa, serão vendidas a particulares, potencializando a onda especulativa do vetor norte da RMBH. De repente, sem qualquer consulta à população, a cidade recebeu a notícia de que será criada essa nova regional sobre uma grande área de preservação ambiental, conforme projeto elaborado por consultoria privada contratada pela Prefeitura.

No campo dos transportes, a preparação para a Copa do Mundo tem servido para justificar gastos públicos destinados à melhoria da chamada mobilidade urbana nas cidades-sede do evento. Entretanto, as obras da Copa, com o alargamento de vias, construção de trincheiras, alças e viadutos, apenas reproduzem o modelo veicular privado, individual e motorizado, quando deveriam priorizar o transporte público acessível, coletivo e de qualidade. Desta maneira, a subserviência ao poder econômico da indústria automobilística determina a continuidade de um padrão insustentável de mobilidade para o país.

No caso de Belo Horizonte, a ampliação do metrô, planejado e não concluído desde a década de 70, foi mais uma vez adiada diante do poder das empresas de ônibus que conseguiram direcionar os recursos da mobilidade para os chamados BRT’s (Bus Rapid Transit), que também servem para justificar a ampliação das vias para que mais e mais carros possam trafegar. Sem dúvida alguma, a Copa do Mundo poderia ser uma boa oportunidade para se buscar alternativas inteligentes e não poluentes para o trânsito, como as ciclovias, por exemplo. Mas o que predomina é o totalitarismo dos carros sobre as pessoas que, quando moram em comunidades pobres, ainda são removidas para dar passagem a novas malhas viárias.

Realmente, esta é a face mais odiosa da realização dos preparativos para os Jogos: tudo justifica as remoções dos moradores que estão no caminho das obras, sem diálogo e sem se buscar soluções alternativas, numa relação extremamente indignante e autoritária entre o poder público e os moradores atingidos. Somam-se a isso os modelos de reassentamento – quando existem – e as formas de indenização que ferem a dignidade do ser humano e anulam qualquer cidadania. Exemplo desse processo está em andamentoem Belo Horizonte: a comunidade “Recanto da UFMG”, com cerca de 60 famílias e localizada a menos de500 metrosdo Mineirão, já está sendo removida para a construção de um viaduto para atender à Copa.

Com a aproximação dos Jogos, toda esta situação tende a aprofundar-se, razão pela qual é preciso construir espaços de organização dos(as) que vivem e produzem a cidade. O objetivo maior deve ser garantir transformações urbanas e culturais em favor de toda a população e exigir a transparência e a participação popular direta nas decisões que afetarão o futuro da cidade.

1 “A Fifa ficará desobrigada de recolher as seguintes taxas e impostos: Importação; sobre Produtos Industrializados (IPI); a Contribuição para o Financiamento da Seguridade

Social (Cofins) sobre bens e serviços importados; e a Contribuição para os Programas de Integração Social e Formação do Patrimônio do servidor Público (PIS-Pasep) sobre a

importação, Imposto de Renda, IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido).” Ver: GloboEsporte.com, http://globoesporte. globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2010/12/fifarecebe-isencao-de-impostos-federais-para-copa-do-mundode-2014.html, acesso dia 8 de fevereiro de 2011.Em Belo Horizonte, sob o argumento de “promover oportunidades

para a população”, além viabilizar dinheiro e benefícios à iniciativa privada com projetos e obras, a PBH encaminhou e a Câmara Municipal aprovou já em2009 aisenção do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), o principal tributo municipal, para as atividades da FIFA em BH, e a contração empréstimo de R$ 1,6 bilhão junto à Caixa Econômica Federal para obras que vão “estruturar a cidade para sediar jogos da Copa2014”.

2 O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Vainer, analisa como as cidades brasileiras têm seguido o modelo de cidade-empresa, organizada para atrair investimentos. Ele mostra ainda que a realização dos megaeventos facilita que se transformem as cidades em territórios de exceção. Disponível em: http://www.epsjv.fiocruz.br/index.php?Are a=Entrevista&Num=21&Destaques=1