Comitê Popular dos Atingidos pela Copa 2014

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Nota do COPAC sobre o 1° jogo da Copa em BH – 14J

Terrorismo de Estado, violência policial, prisões arbitrárias e silenciamento mediático. O que nos resta de democracia?

O que está acontecendo no Brasil não é natural e nem constitucional. No dia 14 de Junho, em Belo Horizonte, a manifestação contra as arbitrariedades de uma Copa que não é do povo, é da FIFA, foi cercada por 4000 policiais do choque, cães e a cavalaria. A PM de Minas não esteve nas ruas para proteger a população, mas para impor o medo, impedindo o direito de manifestação, de reunião e de circulação no território nacional.

 

Amparada por legislações de exceção, como a Lei Geral da Copa e o decreto federal de Garantia da Lei de da Ordem, a PM de Minas a mando do governo PSDB extrapolou todos os limites nas duas últimas manifestações, com detenções arbitrárias, torturas e um cerco ilegal que prendeu os manifestantes por 6 horas na praça 7 de setembro.

 

 

A grande mídia, que outrora apoiou regimes militares, silencia as nossas pautas políticas e distorce os fatos para justificar todas essas ilegalidades. Identificando os “manifestantes vândalos” como inimigos, ela impõe um falso medo na população que esconde quem é a verdadeira ameaça à nossa democracia e cidadania.

 

Vamos então expor adequadamente os fatos:

 

No dia 12 de Junho, abertura da Copa do Mundo, a PM despreparada atacou os manifestantes que se aproximavam no relógio da Copa instaurando uma situação de conflito esmagadoramente desigual. Diante da agressividade dessa polícia, que acontece todos os dias na periferia, pessoas se insurgiram contra vidraças. A polícia se limitou a proteger o relógio no momento do conflito e após o fim da manifestação realizou detenções e espancamentos arbitrários. Ninguém foi detido na manifestação. Relatos de espancamento como o de Jonathan são comoventes e deixam claro que vidraças quebradas não podem ser comparadas a corpos estilhaçados. Ver o depoimento em:http://goo.gl/20AxOi.

 

As detenções do dia 12 de Junho serviram para passar uma mensagem de terror à população. Pessoas foram presas voltando para suas casas por portarem panfletos e materiais de saúde. A rede de advogados informou também que todos os inquéritos policiais foram conduzidos de forma ideológica com perguntas absurdas, tais como: “Você já participou de manifestações?”, “Você curte manifestações no facebook?”. A prisão, tortura e humilhação machista da mídia-ativista Karinny foi claramente uma forma de dar o recado a todos os que querem protestar: ttp://goo.gl/MWKRmn.

 

No dia 14 de Junho, a polícia tentou provar a sua eficiência e, para isso, violou direitos políticos constitucionais. Para entrar no território da manifestação as pessoas tiveram que ser revistadas 3 vezes e, em todas elas, eram ameaçadas pelos PMs. As 15 detenções realizadas nesse dia foram absolutamente infundadas. Pessoas que transitavam nas ruas, algumas das quais não tinham nada a ver com as manifestações, foram presas com facas de cozinha, máscaras do V de vingança, vinagres, ferramentas de skate e material para o exercício artístico de malabares.

 

A ação policial do dia 14 foi um atentado contra a nossa recente democracia. O cerco policial é uma estratégia elaborada por regimes fascistas e não foi desfeito em nenhum momento do protesto. Fomos ameaçados por várias vezes de prisão e espancamento coletivo na praça sete sem nenhum motivo.

 

 

No meio de uma parede policial repressora, de um estado de exceção antidemocrático, de uma institucionalidade violadora de todos os direitos, conseguimos afirmar a democracia real e popular por meio da resistência e da organização coletiva. Uma assembleia foi organizada dentro do cerco para debater os rumos da manifestação, que conseguiu encontrar uma saída para aquela situação dentro do que foi possível e não do que nos era de direito.

 

Por meio de uma negociação desigual entre os manifestantes, o Ministério Público, o governo do Estado de Minas Gerais e a Polícia Militar, foi tomada a decisão de se desfazer o cerco policial para que a manifestação seguisse para a praça da estação. O governo de Minas e a PM não cumpriram a sua palavra e continuaram o cerco durante todo o trajeto refazendo-ona praça da estação, em uma ação ainda mais humilhante.

 

Naquele dia a fragilidade de nossos corpos contrastou com a fortaleza das nossas convicções e da nossa capacidade de resistência. Em uma cidade colonizada pela FIFA e pelos grandes interesses econômicos nacionais e internacionais, que sequestram a nossa democracia, afirmamos o poder popular nas ruas. A praça sete, símbolo da resistência na nossa cidade, esteve ocupada durante o primeiro dia de jogo no Mineirão.

 

Por: Isabella Gonçalves Miranda