Comitê Popular dos Atingidos pela Copa 2014

Belo Horizonte | MG | Brasil

O que está por detrás de nosso grito de GOL? Lições do país do futebol ao jogador espanhol Iniesta

André Iniesta, jogador de futebol pela equipe da Espanha que marcou o gol da vitória na Copa da África do Sul, declarou ontem (29 de maio) não entender os protestos no Brasil diante da Copa, pois segundo ele “o povo deveria celebrar”[i].

Por: SammerSiman, Brigadas Populares, Mestrando em Políticas Sociais (UFES) e

Isabella Gonçalves Miranda, Doutoranda em pós colonialismos e cidadania global e integrante do COPAC.

Iniestra chupando dedo

Entendemos sua limitação, Iniesta, e por isso buscaremos expor um pouco do que nos leva a protestar. Afinal, você nasceu no continente que se coloca como o centro do mundo, mais precisamente na Espanha, que foi um dos países que colonizou a América e que, portanto, sempre nos enxergou num lugar subalterno.

Além do que, Iniesta, com seu brilhante futebol que, indiscutivelmente, se desenvolveu com muito esforço e dedicação, você alcançou um padrão de vida que se distancia em muito dos demais trabalhadores e trabalhadoras de seu país que, diga-se de passagem, sabemos que se encontram em grave situação de desemprego – uma pessoa a cada quatro[ii].

Ou seja, sua limitação é duplicada, e por isso seremos tão pacientes.

Um primeiro ponto, caro Iniesta, é justamente entender que somos marcados pela Colonização. Antes de Colombo chegar, já viviam aqui povos (denominados então por índios) que foram, desde o primeiro contato, expulsos de seus territórios e subjugados em todas as dimensões da sua vida, política, cultural, social e econômica.

Depois, Iniesta, na ampliação do “empreendimento colonizador” os “nossos” europeus lançaram-se no tráfego de escravos, fazendo do negro e da negra uma mercadoria que serviu para encher o nosso território de cana de açúcar.

E sabe pra que serviu o tráfico negreiro, Iniesta? Dentre outras coisas, serviu para formar capital e originaros bancos, o que permitiu iniciar o desenvolvimento da indústria no “centro do mundo”, justamente no lugar em que você nasceu. O açúcar, tirado daqui, serviu também para gerar energia suficiente para seus antepassados trabalharem no inverno, o que não é qualquer coisa no “alto” do mundo, o que fez com que por aí a vida seja mais digna do que por aqui.

No entanto, tu deve imaginar quanto sofrimento levou tudo isso. Toda uma riqueza gerada por povos expropriados de sua terra e de seu modo de vida, somado por um povo extraído de sua terra e dilapidado em seu modo de vida. Assim, Iniesta, desde muito cedo começamos a protestar. Mais do que protestar, aliás, era uma tentativa de nos libertar. E isso se deu quando, por exemplo, formamos Quilombos de escravos como alternativa de construir uma vida digna, numa terra própria.

E, desde muito cedo, Iniesta, que, mais do que “não entender” os protestos, a elite colonial reprimiu esses protestos e toda forma de resistência, assim como faz a elite de hoje, quando nos colocamos a protestar buscando a libertação.

Passado três séculos, Iniesta, uma esperança surgiu. Já era meados do século XIX quando, no Brasil, a escravidão apontava para seu fim, seja pela resistência negra, seja pela tensão modernizadora. Quando se “decretou” formalmente o fim da escravidão, já em 1888, os povos explorados buscaram rumo próprio nos campos e nas cidades que então começavam a se avolumar.

Naquele momento, Iniesta, poderíamos ter iniciado o começo de um voo próprio. Assim queriam os povos explorados. No entanto, Iniesta, naquele momento sofremos mais um duro golpe. As elites brancas aprovaram uma lei que impossibilitava o nosso acesso à terra e ao território. Desde então ocupamos e resistimos para viver, mas frequentemente a lei e a força dos poderosos nos expulsa de nossas casas, de nossas plantações. Como agora Iniestra, expulsaram 250.000 pessoas de suas casas para você poder marcar o gol..

Passado o tempo, tivemos em nosso país um impulso de modernização industrial e a construção de um Estado moderno, um Estado burguês. Com muita luta, começamos a nos inserir na dinâmica da cidade e parte de nós seguimos em busca do sonho que nunca cessou – o de acessar a terra, o de ter um lugar para morar, para produzir.

Passaram os anos de 1930, 40, 50…e fomos nos organizando mais, ficamos mais cientes dos nossos direitos. Assim, Iniesta, no início da década de 60 traduzimos nossos anseios: As reformas de base.

Queríamos uma reforma agrária, urbana, tributária, universitária e tantas quanto fossem necessárias paranos permitir o tão sonhado voo próprio. Como resposta, tivemos um golpe de Estado que adiou mais uma vez esse sonho. Vivemos, então, 21 um anos de cárcere e restrição, mas não sem abandonar os protestos, a busca pela liberdade.

Saímos desse regime, com luta retomamos e ampliamos direitos, refundamos o país, mas ainda seguimos sem resolver nossos grandes problemas, Iniesta. Dessa luta, surgiram líderes, escolhemos um tal sociólogo que prometeu estabilidade (eram tempos de inflação) e como “retorno” vendeu nosso país.Tempos depois escolhemos um outro: O Lula, homem do povo, com trajetória do povo, cara de Brasil.

Nele depositamos novamente um sonho. Das reformas de base por tantas vezes defendida em sua trajetória. E o que deu,Iniesta?

Em nada, ou, pra sermos mais justos, em quase nada. Avançou-se muito pouco, mas o essencial continuou – e continua: Segue o predomínio do latifúndio, das multinacionais e tudo o mais que segue super-explorando o nosso povo. Afinal, Iniesta, o salário aqui é 4 vezes menos o que precisaria ser para termos o MÍNIMO!! Neste sentido, ele é o mínimo, do mínimo, do mínimo, do mínimo.

Nos campos, Iniesta, a pequena propriedade, aquela que produz 70% dos alimentos dos brasileiros, está cada dia mais encurralada pelo agronegócio, pelas atividades mineradoras e outros mega-projetos.

Nas cidades, Iniesta, a vida está um caos! Fomos aos milhões para as ruas em 2013 e nada de importante mudou,Iniesta! Os metrôs e ônibus seguem lotados, saúde e educação de qualidade ruim, além de sermos afastados a cada dia mais para as periferias ou, quando nos rebelamos contra a “ordem”, enjaulados em sórdidas prisões!

Nas periferias, Iniesta, o povo está massacrado, as juventudes, em especial a negra – os tataranetos dos escravos de outrora – está sendo assassinada em massa, Iniesta! E sobre o argumento de combate o tráfico de drogas, Iniesta, quando bem sabemos que os verdadeiros traficantes estão engravatados e andando de helicóptero!

Assim, Iniesta, a Copa, ao invés de ajudar, só ampliou a barbárie! Por aqui, nada menos que 250 mil famílias foram removidas para uma Copa que não nos diz respeito, Iniesta! Uma Copa que tem o grande objetivo de engrossar a conta bancária da FIFA e seus patrocinadores, e nesse ponto tu deve saber bem, do quanto rola de dinheiro num evento como esse, não é!?

Aliás, vale dizer, Iniesta, você acertou em uma coisa. Somos o país do futebol. Só que a grande parte de todo o país, aquela que assistirá aos jogos, o verá da mesma maneira que já viam em outros momentos: Pela TV! Isso porque, para ver o Brasil num jogo, um trabalhador deveria trabalhar 1, 2 ou 3 meses sem respirar e sem se alimentar para pagar um ingresso!

Enfim, o que esperamos, daqui por diante, Iniesta, é que tenha cuidado com as palavras, pois não é justo que use seu talento para ofuscar a dor de nosso povo que guarda, por detrás do grito de gol, o sonho por um outro país. Pois, mais do que protestar, com a carga de 514 anos, estamos mesmo é lutando por nos libertar!

Brasil, 30 de maio de 2014

 

[i]                       http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/05/29/iniesta-diz-nao-entender-protestos-no-brasil-o-povo-deveria-celebrar.htm

 

[ii]                      http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2014/04/29/interna_internacional,523545/taxa-de-desemprego-volta-a-subir-na-espanha-a-25-93.shtml

 

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2 Respostas para “O que está por detrás de nosso grito de GOL? Lições do país do futebol ao jogador espanhol Iniesta

  1. kara 10 de junho de 2014 às 20:50

    Interessante, ninguém assina esta matéria… que medo!!!

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