Comitê Popular dos Atingidos pela Copa 2014

Belo Horizonte | MG | Brasil

O impulso ao futebol nos anos de chumbo

Os militares sabiam que sendo eficientes na tarefa de estimular o desempenho da seleção brasileira, diminuiriam as contestações populares contra o regime.

Aníbal Chaim
 
Sarau Debaixo

 O período mais repressivo da ditadura militar – também chamado de ‘os anos de chumbo’ – foi marcado pela aproximação da política (e dos políticos) brasileira em relação do futebol. Isso não aconteceu à toa: em 1968 os militares se defrontaram com o maior movimento de oposição a seu governo. Com a edição do AI-5, no fim daquele ano, a criação de vias alternativas para obtenção de apoio popular se tornara uma necessidade de primeira importância.

 
A atração exercida pelo esporte bretão sobre os setores mais populares brasileiros já era conhecida de longa data. Os militares sabiam que se fossem eficientes na tarefa de estimular o desempenho da seleção brasileira de futebol – e em atrelá-lo ao governo -, conseguiriam amainar o nível das contestações populares contra o regime. Cerca de dez dias antes da edição do AI-5, Costa e Silva reuniu-se com João Havelange (o homem-forte do futebol brasileiro) e lhe disse que fazia questão de proporcionar ao povo a conquista da Copa de 1970, a ser disputada ainda em seu mandato. Para isso, estaria disposto a investirmaciçamente nas atividades da CBD (atual CBF, na época presidida por Havelange).
 
Aqueles dois homens realizaram um pacto que influenciou decisivamente os rumos tomados pelo esporte brasileiro: seu primeiro fruto foi a Loteria Esportiva, criada já em 1969, mas operacionalizada em 1970. No ano seguinte, foi criado o Campeonato Brasileiro, sobre cujos jogos se palpitava na Loteria.
 
Se as instituições criadas em favor da difusão do futebol pelo Brasil se demonstraram eficientes (a Loteria Esportiva gerou muito dinheiro para a CBD, e o Campeonato Brasileiro existe até hoje), os resultados obtidos em campo foram ainda mais favoráveis. A seleção brasileira não perdeu sequer um jogo nas Eliminatórias para a Copa. Até que começasse o torneio, o presidente Médici (sucessor de Costa e Silva), orientado pela AERP (Agência Especial de Relações Públicas da Presidência da República), fez questão de se demonstrar absolutamente devotado e confiante no sucesso do ‘Brasil’, fazendo diversas aparições públicas e sendo enunciado pela mídia como um ‘presidente-torcedor’.
 
O tricampeonato coroou todo o projeto de autopromoção política via esporte elaborado pela ARENA. O triunfo esportivo foi sistematicamente atrelado ao “milagre econômico” nas propagandas oficiais. Para prolongar o efeito de ‘êxtase popular’ gerado por Pelé, Jairzinho e companhia, o governo instou a CBD a, ano após ano, aumentar o número de clubes participantes no Campeonato Brasileiro, fazendo assim com que cada vez mais localidades do Brasil (principalmente das periferias e interior do país) pudessem ver, ao vivo, o espetáculo futebolístico patrocinado pelo Estado. Em 1972 promoveu-se a Taça da Independência, em comemoração aos 150 anos da Independência brasileira. Em 1974, dois terços do orçamento da CBD foram destinados para a preparação do selecionado nacional para o mundial, que aconteceria na Alemanha. Com todas as fichas estatais apostadas sobre si, a seleção brasileira amargou um quarto lugar neste torneio.
 
A derrota de 1974 jogou um balde de água fria nas pretensões arenistas: depois de passar quatro anos atrelando insistentemente o sucesso do Brasil ao sucesso de sua seleção de futebol, o que se tinha era o fracasso, que inevitavelmente jogaria contra o regime, o grande responsável pela construção – inclusive midiática – do elo seleção=Brasil=governo.
 
Agora a grande fonte de apoio popular ao regime havia secado; a seleção só teria uma nova oportunidade de se restabelecer em quatro anos, mas as eleições legislativas aconteceriam já em novembro de 1974 e o governo contava com o apoio popular para este pleito. O fracasso da seleção na Copa foi seguido de um fracasso da ARENA nas urnas, o que forçou os militares a recalcularem suas perspectivas de sequência no poder.
 
Aníbal Chaim. Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo com a dissertação “A bola e o chumbo: futebol e política nos anos de chumbo da ditadura militar brasileira

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FPolitica%2FO-impulso-ao-futebol-nos-anos-de-chumbo%2F4%2F30661

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