Comitê Popular dos Atingidos pela Copa 2014

Belo Horizonte | MG | Brasil

A morte de Fábio Hamilton da Cruz: o Brasil perde a Copa pela oitava vez

 

Roberto Oliveira

Às 17h do dia 12 de junho de 2014, daqui a exatos 70 dias, a Seleção Brasileira entra em campo para a estreia contra a Croácia na Copa do Mundo FIFA 2014. Será a abertura do megaevento.
 
Mas o gramado que será pisado pelos pés de obra do quilate de Neymar, Oscar e Thiago Silva sepulta algumas verdades que não serão ditas senão por quem compreende que debater a realização do Mundial no Brasil não significa torcer contra o país ou contra a escrete canarinho.
 
A propósito das irregularidades impostas pela FIFA e praticadas pelos governos em todos os níveis, a remoção de populações inteiras (os comitês populares da Copa estimam entre 250 e 300 mil pessoas); o superfaturamento de obras, que pularam de quase 10 para mais de 30 bilhões; a insegurança jurídica gerada por leis de exceção, à sombra da perda de soberania nacional frente a FIFA – uma associação internacional de direito privado – estão entre os temas prioritários a serem discutidos no próximo período da agenda política nacional. Com o intuito de que daqui a dois anos, quando dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, não estejamos repetindo a história – só que dessa vez como farsa.
 
Mas entre as tantas denúncias e críticas que podem emergir do processo de construção da Copa no Brasil, uma delas ainda é intencionalmente maquiada, encoberta, ocultada: o papel cumprido pelas empreiteiras neste jogo. Mas por quê? A serviço de quem? E como?
 
Histórico
No último sábado, 29 de abril, morreu o 8º operário em canteiros de obra dos estádios do Mundial. A vítima da vez foi o jovem de 23 anos Fabio Hamilton da Cruz, que despencou de uma altura de 8 metros enquanto instalava as estruturas temporárias – exigidas pela FIFA – do estádio em Itaquera, zona leste de São Paulo. Antes dele, em 27 de novembro do ano passado, também no estádio do Corinthians, três estruturas metálicas caíram causando a morte de Fábio Luiz Pereira, de 42 anos, e Ronaldo Oliveira dos Santos, de 44.
 
Em junho de 2012, o funcionário José Afonso de Oliveira Rodrigues morreu após cair de uma altura de 30 metros no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Na Arena Amazônia, em Manaus, o operário Antônio José Pita Martins, de 55 anos, estava desmontando as peças de um guindaste quando uma delas caiu em sua cabeça. No mesmo estádio, outros dois operários já haviam sofrido acidentes fatais: Marcleudo de Melo Ferreira, 22 anos, caiu de uma altura de 35 metros e morreu no dia 14 de dezembro. Em março de 2013, Raimundo Nonato Lima da Costa, de 49 anos, também faleceu após despencar de uma altura de 5 metros. Por fim, o operário José Antônio da Silva Nascimento, de 49 anos, sofreu um infarto também enquanto trabalhava na Arena Amazônia.
 
Oito mortes. Oito famílias que, ao rolar a bola no Mundial, não se lembrarão das copas conquistadas. Mas de vidas ceifadas.
 
Esconder a verdade: como, para quem e por quê? 
No dia 31 de março, dois dias após da morte de Fábio Hamilton da Cruz, o Corpo de Bombeiros de São Paulo realizou uma vistoria no estádio de Itaquera e constatou 26 irregularidades em quesitos de segurança como barras antipânico, extintores de incêndio e saídas de emergência – 4 meses e 4 dias após a morte dos dois primeiros operários da “arena” corinthiana.
 
Um dia antes, após conversar com operários da obra, o delegado Rafael Pavarina, do 24º DP, afirmou que os relatos são de “excesso de confiança” da vítima, que não se prendeu a um cabo de segurança durante um trabalho específico. Curioso: já pensou se o uso (ou não) do cinto de segurança de um automóvel fosse uma escolha dos próprios motoristas, mesmo existindo uma legislação de segurança no trânsito que obriga montadoras a disponibilizar a ferramenta e condutores a usá-la? Culpa do morto, coitado, que nem está mais entre nós para se defender. Já foi julgado, acusado e condenado pela declaração leviana de um delegado de polícia, fonte das primeiras matérias na mídia sobre o caso, e pagou a sentença com a própria vida.
 
Em toda obra de construção civil, seja ela Belo Monte, Transposição do Rio São Francisco ou um estádio para a Copa, algumas normas de segurança são obrigatórias. A mais comum delas é a realização do chamado DDS – diálogo diário de segurança. Nele, um técnico de segurança do trabalho passa as orientações necessárias para a garantia da saúde dos funcionários. Mas as técnicas de segurança não se limitam ao DDS, assim como não pode se ater à realização do DDS o trabalho do técnico de segurança. Sua presença é fundamental em todos os turnos das obras, em todas as frentes de trabalho. Estavam as obras em Itaquera respeitando este e demais quesitos de segurança? Não sei. Segundo os Bombeiros, não! Mas por que nenhum veículo da grande mídia se faz esta pergunta?
 
A Odebrecht e demais gigantes da construção civil, responsáveis por grandes obras de infraestrutura em todo país, respeitam todos os quesitos de segurança no trabalho em seus respectivos canteiros de obra? As grandes construtoras exigem dos seus “gatinhos” – alcunha carinhosa dada às empresas menores subcontratadas para realizar trabalhos pontuais, como a instalação de uma arquibancada móvel – as mesmas regras impostas a elas? E quem fiscaliza isso, não só nas obras da Copa, mas em todos os edifícios, estradas, pontes, portos, aeroportos, refinarias, hidrelétricas etc. em construção no país? Por que, em pleno século XXI, operários cumprem jornada de trabalho de até 16 horas, com a desculpa das horas-extras, e ninguém faz nada?
 
A verdade nua e crua, tal como dói, é que as empreiteiras têm carta branca do poder público para pintar e bordar com seus funcionários, prestadores de serviços e clientes. Até porque elas estão, ao lado das empresas de transporte, por exemplo, entre as principais financiadoras de campanha no Brasil. E doam a torto e a direito, porque independentemente de quem ganhar as eleições – petistas ou tucanos, gregos ou troianos – elas continuam a dar as cartas no jogo da especulação imobiliária e das políticas habitacionais. Doam, não, emprestam aos políticos da ordem, investem em suas candidaturas. Depois, cobram com juros e correção monetária. E recebem!
 
Para tanto, contam com a boca fechada da grande mídia (que também recebe lá seus trocados das empreiteiras via contratos publicitários) e com a conivência do poder público – executivo e legislativo, patrocinados, e o judiciário, cuja balança costuma pender para o lado mais fraco.
 
Fábio Hamilton da Cruz não estava usando o cabo de segurança quando caiu, dizem as testemunhas. Mas a culpa não é dele, como tentam induzir alguns especialistas em desvio de foco e em individualizar problemas coletivos. Ao menos, não somente.
 
É responsabilidade da mídia independente denunciar este e demais problemas tupiniquins que vieram à tona com a repercussão do Mundial, mas que já figuravam entre entraves aos direitos humanos no país desde muito antes. Isso não é torcer contra. Mas a favor do Brasil. Afinal, não queremos que essa história se repita nos Jogos Olímpicos. Se é que não já está se repetindo…
 
Em 70 dias, quando a bola rolar para a Copa do Mundo FIFA 2014, a Seleção Brasileira terá 7 jogos para se consagrar hexacampeã mundial. O gramado da estreia, em São Paulo, estará regado de sangue, assim como o de Manaus e Brasília. A escrete canarinho é uma das favoritas ao título entre as quatro linhas. Fora de campo, porém, nós já perdemos a Copa.
__________
 
Roberto Oliveira, 23, é jornalista formado pela PUC-SP. Atualmente prepara a publicação de seu primeiro livro: Os Caminhos do Velho Chico – o Grande Rio Nacional, sua Gente e seu Futuro.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FDireitos-Humanos%2FA-morte-de-Fabio-Hamilton-da-Cruz-o-Brasil-perde-a-Copa-pela-oitava-vez%2F5%2F30653

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